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30.06.2012 - 13h24

Seminário de cultura popular provoca reflexões

Segundo e último dia do evento discutiu, além de outros temas, diálogo entre tradição e expressões artísticas, como música, dança e teatro

Chico Ludermir

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Maciel Salu, João do Pife, Júnior Black e Paulo e Paulo Dias discutiram sobre as relações entre música e cultura popular

Nesta sexta-feira (29/6), o segundo e último dia do I Seminário Cultura Popular: Tradição e Apropriações trouxe à tona as relações das expressões tradicionais com a música, a dança e o teatro. Em duas mesas, uma pela manhã e outra pela tarde, no auditório do Iphan, os participantes provocaram a plateia a refletir sobre diversos temas, como a transmissão de saberes, os incentivos financeiros e a espetacularização da cultura.

Maciel Salu, filho e herdeiro do Mestre Salustiano, reclamou mais espaço para cultura local nas rádios e TVs. Em Pernambuco, segundo ele, os meios de comunicação dão pouco valor às expressões tradicionais. “Acho que para mudar isso tem que investir na educação e assim formar público para as expressões do nosso Estado. Os mestres da cultura popular são muito fortes, mas precisam ser mais valorizados e respeitados”, afirmou.

Além do que se aprende nas escolas, existe ainda o que se aprende vivenciando e o que se recebe pela grande mídia, acredita Paulo Dias, etnomusicólogo e fundador e diretor da Associação Cultural Cachuera. Para o estudioso, existe uma apropriação recíproca entre o erudito e o popular, que vem desde a época da colonização. “A mistura e a apropriação acontece de ambos os lados, como bem descreveu Gilberto Freyre. O popular tem alimentado debates sobre nacionalidade até hoje”, disse durante sua explanação.

Tocador e artesão, João do Pife compartilhou a sua história com a plateia desde quando morava em Riacho da Almas até quando se mudou para Caruaru e passou a vender na feira da cidade. Aos 8 anos, João já tocava novenas ao lado do pai nas roças vizinhas e hoje acredita que é mais reconhecido fora do País do que na própria cidade. “As pessoas querem pagar muito pouco pelo nosso trabalho”, reclamou.

Cultura popular na dança e no tetro
Durante a tarde, a segunda mesa de debate abordou os temas da cultura popular na dança e no teatro. Com a participação dos professores Maria Acserald e Érico José Souza de Oliveira, e do mamulengueiro Fernando Augusto Gonçalves (Mamulengo Só-Riso), o público pode entrar em contato com estudos e experiências destas linguagens.

Acadêmica da Universidade Federal de Pernambuco, Maria Acserald dividiu a metodologia que utiliza em suas aulas de dança popular. Segundo ela, o aprendizado em dança envolve uma transformação do corpo e da mentalidade, por isso a professora propõe leituras e vivências aos seus alunos. “A inclusão das danças tradicionais no currículo do curso de licenciatura é uma valorização da fronteira como possibilidade da troca”, afirmou.

Para Fernando Augusto, do Mamulengo Só-Riso, a tradição é o caráter da nação, necessária até mesmo para as manifestações de vanguarda. Mamulengueiro há 30 anos, Fernando apresentou um pouco de sua pesquisa com os brincantes e defendeu a valorização dos mestres.

Finalizando o seminário, o professor da Universidade Federal da Bahia Érico José Souza de Oliveira compartilhou as suas experiências de pesquisa. Érico descobriu que havia, por exemplo, venda de CDs de cavalo marinho em outros países sem que houvesse sequer autorização dos grupos. “É muito difícil trabalhar o teatro popular nos meios acadêmicos”, acrescentou. 

A coordenadora da pasta de Cultura Popular da Secretaria de Cultura de Pernambuco, Alexandra de Lima Cavalcante, avaliou positivamente a experiência. “Percebemos que havia a demanda de discutir esse tema e ocupamos este espaço de debate. Acredito que estes encontros da sociedade civil com brincantes, estudiosos e gestores são estímulo de autoconhecimento”, avaliou.

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