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29.06.2012 - 08h31

Estudiosos e brincantes debatem cultura popular

Abertura do I Seminário Cultura Popular: Tradição e Apropriações discutiu as reinvenções e a literatura nas manifestações tradicionais

Ricardo Moura

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Primeira mesa do seminário reuniu Leonardo Leal, Américo Córdula, Guitinho e Carlos Carvalho

De que maneira e por quais motivos a classe média vem se apropriando da cultura popular nos últimos tempos? Quais os aspectos positivos e negativos desta quebra de fronteiras? Onde as políticas públicas entram nessa rede complexa de preservação sem que para isso se invista na estagnação das manifestações? 

Estas e outras questões foram debatidas na mesa “Cultura Popular, sua reinvenções e apropriações”, na abertura do I Seminário Cultura Popular: Tradição e Apropriações, que aconteceu hoje, às 9h, no auditório do Iphan. Carlos Carvalho, diretor de Políticas Culturais da Secretaria de Cultura de Pernambuco, ressaltou a importância dos diálogos estabelecidos a partir de seminários como os promovidos  pelo  programa “Cultura: bom para pensar”, idealizado pela Secult-PE. “Eu acho que essa iniciativa é muito importante porque nós saímos dos gabinetes e entramos em contato direto com aqueles que fazem e vivem a cultura”, analisa o diretor.

Leonardo Leal, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, apresentou um trecho de sua pesquisa intitulado “Práticas, interesses e tensões de ser e não ser maracatu”. O pesquisador contribuiu para a discussão com um olhar mais teórico sobre o assunto,  falando, sobretudo, sobre a transformação do maracatu perante os olhos da classe média, especialmente no Brasil. Citou o movimento mangue como um marco dessa recente interação, e problematiza questões como descaracterização, mercantilização e identidade.

Américo Córdula, diretor de Estudos e Monitoramento de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, fez um breve histórico da situação da cultura popular dentro das políticas públicas no Brasil, e sua importância incontestável para o país. “A cultura popular está presente em todas as nossas 5600 cidades, no entanto as políticas sempre estiveram voltadas para as linguagens artísticas. Percebemos que a cultura popular estava fora desses mecanismos”, reflete o diretor. Segundo ele, nos últimos dez anos, e mais precisamente a partir de 2005, com a realização do I Seminário Nacional de Políticas para as Culturas Populares, promovido pelo  Governo Federal, a cultura popular vem ganhando espaço e inserção nas pautas do governo, culminando recentemente em um Plano Setorial para as Culturas Populares, que pode ser acessado integralmente www.cultura.gov.br/cnpc/wp-content/uploads/2011/07/plano-setorial-de-culturas-populares.pdf)">neste site. 

Fechando o primeiro debate, Guitinho da Xambá, representante da Nação Xambá, enfatizou na sua fala a preocupação com o que chama de “plastificação” das manifestações populares. “Daqui a pouco temos que comprar o maracatu no supermercado. A ciranda só vamos poder ver no teatro, a brincadeira vai sendo teatralizada”, diz o músico, que falou também da necessidade de uma política que, acima de tudo, compreenda a cultura popular. “A cultura popular tem uma ciência enorme”,concluiu.


Cultura Popular e Literatura


A segunda mesa de debates abordou as relações entre cultura popular e literatura e contou com a participação do escritor Wilson Freire, da jornalista e pesquisadora Maria Alice Amorim e do coquista e mestre de baque solto Adiel Luna. Mediados pelo poeta Ésio Rafael, os convidados dialogaram sobre manifestações orais, tradição e as novas possibilidades de expressão popular através da internet.


Wilson Freire pontuou que a literatura escrita brasileira tem pouco mais de 200 anos. Só em 1808, com a vinda da família real portuguesa para o Brasil é que veio a primeira prensa para o país. “A nossa cultura escrita é muito recente e está impregnada de oralidade”, afirmou. 


Estudiosa de uma literatura que chama de “tradicional” Maria Alice Amorim apresentou diversas expressões artísticas populares: coco de roda, coco de embolada, samba de matuto, ciranda, violeiros e repentistas que trazem o improviso e a disputa entre os cantadores como prática. “A poesia nestes casos é mais do que a forma fixa. É necessário que os improvisadores tenham discurso, métrica, cadência e uma grande agilidade mental”, afirmou Maria Alice. A pesquisador também destacou a influência da internet nas pelejas contemporâneas e citou exemplos de diversos encontros poéticos no facebook e no twitter. 


Ao final dos debates e conduzidos por Adiel Luna, a música popular pode mostrar-se por si mesma. O coquista improvisou ao lado de convidados da plateia e demonstrou um pouco do que havia sido exposto na mesa de conversa.


“Nesse primeiro dia, nas duas mesas, a gente entrou em contato com visões bem distintas. O seminário tem conseguido unir estudiosos e fazedores da cultura tradicional do nosso Estado”, avaliou Alexandra de Lima Cavalcanti, Coordenadora da pasta de Cultura Popular da Secretaria de Cultura do Estado (Secult-PE).


Nesta sexta-feira (29) o I Seminário Cultura Popular: Tradição e Apropriações continua a partir das 9h discutindo a dança, o teatro e a música na cultura popular.

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